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Château Lanessan, na Haut-Médoc

Château Lanessan, na Haut-Médoc

 

Mais um château incrível que tive o prazer de conhecer e venho aqui contar tudinho a vocês. Dessa vez, vou falar sobre o Château Lanessan, que fica na região AOC de Haut-Médoc. Fica na margem esquerda do Rio Gironde e é vizinha de diversas outras vinícolas incríveis. Como estamos falando de margem esquerda, podemos esperar uma predominância da Cabernet Sauvignon, seguida pela Merlot. Aquele esquema básico que eu já contei a vocês nos outros textos (se ainda não leu, volte algumas casas e leia tudo, pois tem muita informação bacana para os amantes de vinho e o mapa de como explorar a região de Bordeaux).

O Château Lanessan é um lugar lindo e com muita história para contar. Tudo começou em 1793 quando o mercador de vinhos chamado Jean Delbos comprou uma área de 24 hectares de vinhas. Em 1878, o arquiteto Henri Duphot terminou a construção do château que existe até hoje, com um estilo neoclássico com muita influência da família real inglesa dos Tudors (eu amo cada história dessa família, por ser intrigante e incrível), e com isso onde se produz o vinho também estava terminado. Com o passar dos anos, o tamanho do vinhedo foi aumentando e passou dos 100 hectares, consequentemente aumentando a produção dos vinhos também. Importante dizer que durante todos esses anos, o comando do Château Lanessan passou por gerações da mesma família. Hoje, após tantas modernizações, eles produzem um vinho sustentável, amigo do meio ambiente e cheio de personalidade.

Lá eles plantam 60% de Cabernet Sauvignon, 35% de Merlot, 4% de Petit Verdot e apenas 1% de Cabernet Franc. Fica bem óbvio que praticamente todos os châteaux dão prioridade para as cepas de Cabernet Sauvignon e para Merlot. As outras uvas, aparecem em menor quantidade, nos vinhos e nas plantações. Mas elas não devem ser esquecidas, pois são importantes na hora de fazer o corte do vinho, mesmo que seja em menor quantidade.

Durante a visita ao Château Lanessan, vi como existem possibilidade de variações para explorar. Lá, eles deixam uma parte do vinho em tanques de concreto (ao invés de usar os tanques de aço inox). Algumas pessoas não gostam dessa técnica. Eu, particularmente, acho super interessante, pois são coisas novas que tentamos e o resultado pode ser diferente do habitual. Há quem diga que os tanques de concreto deixam um aroma e sabor muito intenso de mineralidade. Eu não senti nada disso nos vinhos do Château Lanessan, mas em uma degustação que fui de uma vinícola argentina (não cabe dizer o nome aqui), eu achei que estava muito forte e acabei não gostando. Mas esses vinhos aqui, não tem mineralidade nenhuma.

Eles também possuem variações de vinhos. São três. Château de Saint Gemme (que é um blend de Cabernet Sauvignon com Merlot, tem sua fermentação nos tanques de aço, em baixa temperatura, para que sua fruta seja destacada, com taninos marcantes e bem apimentado na boca, com bem equilíbrio entre a acidez e o álcool), tem o Les Calèches de Lanessan (que é um blend de Cabernet Sauvignon, Merlot e Petit Verdot, tem sua fermentação nos tanques de concreto, bastante frutado, um vinho para ser bebido mais jovem, para aproveitar essa fruta tão equilibrada que ele nos oferece) e por fim, o primeiro vinho deles que se chama Château Lanessan (que também é um blend de Cabernet Sauvignon, Merlot e Petit Verdot, esse também fica algum tempo nos taques de concreto que mencionei acima, com taninos intensos, acidez perfeita e uma persistência incrível e muito longa).

Durante a degustação, pela primeira vez na vida, fiz um esquema que sempre ouvi falar, mas que poucas vinícolas oferecem aos visitantes, por se tratar de algo que a gente começa a entender melhor o vinho que eles produzem. Uma degustação vertical. Mas o que seria uma degustação vertical? Te explico! Você escolhe um só vinho e pega diversas safras, e nós vamos degustando ano após ano. Mesmo sendo o mesmo vinho, produzido com as mesmas uvas, com as mesmas leveduras na fermentação, com os mesmos parâmetros e tudo mais, tem uma diferença abissal entre alguns. Tudo por conta de fatores climáticos, alterações de terroir, coisas que a natureza faz e a gente não consegue controlar. Mas, uma coisa é nítida em todos os vinhos de todos os anos: a qualidade e excelência do vinho que eles se dedicam a fazer.

Fiz uma degustação vertical do primeiro vinho deles, o Château Lanessan, aquele principal que leva o nome da vinícola. Fantástico! Provamos 9 vinhos, incluindo o da safra 2018 que nem começou a ser comercializado ainda. Os anos foram nessa ordem. 2009, 2010, 2011, 2012, 2014, 2015, 2016, 2017 e 2018. Incrível como o vinho muda e fica mais maduro com 10 anos de idade. Comparando os extremos, temos um 2009 com muito corpo, taninos macios na boca, uma cor mais pro vermelho rubi médio, no nariz aromas defumados, frutas em compota, alguns aromas animais (mas bem sutis) e um floral delicioso, combinado com uma persistência incrível. Na outra ponta temos um 2018, jovem e cheio de vida, com um vermelho púrpura escuro maravilhoso, muita fruta vermelha e negra frescas, com taninos marcantes e já se mostra um grande vinho. Entre esses dois, temos vinhos com diferentes características e foi demais poder ter essa experiência, algo que para mim e para meu curso de sommelier, é muito importante.

Acho que só de ter feito essa degustação, valeu a visita ao Château Lanessan. Mas, eles fabricam um vinho de excelente qualidade e dá para perceber que eles possuem história, coisas para contar. Toda a estrutura da vinícola é muito bem organizada e eles selecionam os melhores frutos da videira para ir ao vinho. Uma coisa que percebi lá em Bordeaux, é que o padrão de qualidade é muito mais alto do que os outros lugares que visitei. Geralmente, eles sabem escolher os melhores mostos (mosto é o suco que sai da fruta na hora da prensagem e o primeiro deles, aquele suco que sai só com o peso das uvas uma em cima da outra, é o mosto flor) para fazer o vinho. Com relação a isso, não tem conversa.

Lá no Château Lanessan é assim. Um lugar diferente para a gente conhecer e se encantar. Espero que estejam gostando dessa saga enológica pela região de Bordeaux. Eu estou amando contar tudo a vocês. Fiquem de olho nas próximas dicas.

Château Lanessan

Cussac-Fort-Médoc. França. (Aplicativos de GPS te levam certinho ao local).

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