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Château d’Yquem, em Sauternes

Château d’Yquem, em Sauternes

 

Agora, nós estamos falando muito sério aqui. Pelo simples fato de que neste Château, é produzido o melhor vinho doce do mundo. Bom, pelo menos é o que dizem os especialistas, que o chamam de “ouro líquido”, por conta da cor dourada linda que ele tem. Este château fica na região de Sauternes, ao sul de Bordeaux. Foi menos de uma hora para chegar lá em uma estrada bem tranquila. É só colocar no Waze e fica tudo certo (mas cuidado, pois às vezes o Waze te leva para outra entrada).

Antes de escrever sobre o Château e sua história, quero dar uma introdução sobre a região de Sauternes e sobre o que acontece lá, para que seja produzido esse vinho tão emblemático. Primeiramente, em Sauternes estamos falando de margem esquerda do rio Garonne e os pontos mais altos da região tem por volta de 75 metros acima do nível do mar. Apenas. Mas ali, algo mágico acontece que favorece tudo isso. A garrafa de “luz engarrafada” (como já foi citada até em alguns livros de literatura como Júlio Verne e Marcel Proust) não acontece por acaso. Existem diversos fatores que devem trabalhar juntos para que o melhor vinho doce do mundo seja produzido.

Existem algumas formas de se produzir vinhos doce pelo mundo. A mais comum, é colher a uva mais madura e deixar que ela seque naturalmente. Eles chamam esse processo de Late Harvest (geralmente, esse termo vem escrito nas garrafas dos vinhos de sobremesa). Os vinhos do Château d’Yquem são produzidos de outra forma. Existe um fungo, chamado Botrytis Cinerea que joga nos dois lados da moeda. Ele pode ser o vilão ou pode ser o mocinho, mas tudo depende do clima que ele encontra. Se ele ataca como vilão, encontramos o que chamamos de Podridão Cinzenta e isso acaba com a uva em poucos dias. O produtor literalmente perde as uvas, pois nada se pode fazer com relação a isso. Mas, se ele ataca como mocinho, temos a tão esperada Podridão Nobre e é isso que todo produtor de vinho doce gostaria de ter em suas uvas. Lá em Sauternes, o clima favorece para a Podridão Nobre. É necessário um tempo de umidade excessiva (para que o fungo se prolifere e fique todo feliz da vida), seguido de dias bem secos com amplitude térmica baixa. Esse é o clima ideal para que a Botrytis Cinerea ataque as uvas de forma coordenada e deixando todo o açúcar e principalmente, preservando a acidez. Fatores necessários para a produção desse vinho tão especial e peculiar.

Uma vez explicado o que acontece com as uvas do Château d’Yquem, vamos ao local. São campos enormes de uvas e lá são plantadas 75% de uvas da cepa Sémillion e apenas 25% de Sauvignon Blanc. A Sémillion vai garantir o corpo do vinho, já a Sauvignon Blanc vai trazer aromas deliciosos ao corte. São mais de 100 hectares na propriedade e eles fazem tudo lá, todas as etapas do processo de produção. Existem videiras com quase 50 anos de idade, mas eles vão trocando com o tempo e também fazendo diversos testes. O bacana é que esses testes duram anos, pois não é logo de cara que a videira está produzindo uvas e boas uvas. Ela precisa de uma certa maturidade também.

Quando falamos de Château d’Yquem, estamos falando de mais de 400 anos de história. Esse lugar já foi dominado pelos ingleses (já que o rei Henrique II era casado com a Duquesa de Aquitânia, logo ele se tornou Duque da região e comandava tudo). Somente no século XV o a região voltou ao domínio francês, após a Guerra dos 100 anos. Jacques Sauvage, em 1593, descendente de uma família nobre local, decidiu construir o château e cultivar as videiras. Eles plantaram planta por planta, cuidando de tudo bem de perto. Aos poucos, eles começaram a perceber que o clima de lá causava algo diferente nas uvas e então, começaram a entender o que precisava ser feito para produzir vinhos ali.

Em 1788, a viúva do conde Louis Amédée de Lur-Saluces, a jovem condessa Françoise Joséphine Sauvage d’Yquem, decidiu que tocaria os negócios após a morte de seu marido conde. Ela se tornou a cabeça do Château e elevou o nível da fama do vinho. Em outras palavras, ela fez um belo marketing do vinho do Château d’Yquem. Na época, o então ministro Thomas Jefferson, visitou a região e levou de volta para casa algumas garrafas do vinho branco doce. A fama lá foi tão grande, que o próprio presidente dos Estados Unidos, George Washington, pediu várias dúzias das garrafas do vinho. Joséphine também construiu a primeira adega do château e aprimorou o método de colheita das uvas botritizadas.

Visitar esse local é viajar no tempo, sentir toda essa energia antiga e intensa que tem ali. O château antigo, aquele primeiro que foi construído, ainda está lá, mas hoje ele serve apenas como prédio administrativo. Os jardins parecem dos castelos franceses (não perde para alguns jardins que vi no Vale do Loire) e são cuidados em todos os detalhes por jardineiros, que os deixam perfeitos.

O que encontramos de antigo na parte de fora, encontramos de moderno no interior do Château d’Yquem. A vinícola é muito moderna, porém eles preservam alguns fatores que vieram passando de geração em geração, segredos que dão a fama ao vinho. Eles possuem uma loja com diversas garrafas de diversas safras (reza a lenda que algumas das melhores safras são 1921, 1937, 1945, 1967, 1983, 1990, 1997, 2001 e 2005), mas na degustação provei outros anos, já falo quais foram. E para quem não sabe, o Château d’Yquem também produz vinho seco. Um vinho branco seco produzido com 75% de Sauvignon Blanc e 25% de Sémillion. Ao contrário do vinho doce que é produzido com 75% de Sémillion e 25% de Sauvignon Blanc.

É possível fazer o tour pela vinícola. Envie um e-mail a eles e tente agendar quando estiver pela região de Bordeaux. Aí, você poderá ver de perto as barricas de carvalho francês que eles deixam o vinho, uma apresentação super moderna contendo uma explicação básica sobre a Botrytis, sobre a produção dos vinhos. E ao final da visita, podemos degustar o vinho. Uma experiência única e difícil de explicar, pois a complexidade desse vinho é única.

A degustação começou com o vinho seco. Se chama Y (se fala igréc, como se fala a letra Y em francês) da safra de 2017. Um vinho jovem, com uma cor linda, corpo maravilhoso, acidez elevada maravilhosa na boca e aromas incríveis de minerais. Um vinho de responsabilidade! Mesmo que ele não seja o principal produto da vinícola, pode beber tranquilamente, pois é um vinho muito bom.

Agora, o famoso Château d’Yquem… me faltam palavras para descrever esse vinho. Provei a safra que estão comercializando agora, do ano de 2016 e também tive a honra de provar um 2006. São dois vinhos completamente diferentes. A tonalidade do 2006 é um pouco mais escura que a do 2016, e ele também já começa a ter alguns aromas mais maduros. O 2016 é um vinho muito frutado (senti aromas de damasco e pêssego de leve), mas também tem muito caramelo e principalmente, mel. Não tenho como ir além disso (minha capacidade limitada sobre vinhos não permite), mas é realmente uma experiência para a gente levar para a próxima vida.

Na verdade, toda a experiência de ver tudo isso de perto e ainda ter a oportunidade de provar esses vinhos, foi sensacional. Meus professores do curso de sommelier sempre mencionam a importância desse vinho e poder chegar até lá, ser recebida com carinho pelas pessoas que trabalham lá, não tem preço. Foi algo inesquecível que recomendo a todos meus amigos que amam vinho. O Château d’Yquem é simplesmente espetacular e o vinho, apesar de eu ter pouca experiência provando os doces, para mim, foi um dos melhores vinhos que provei na vida. Tudo maravilhoso. Merece sua visita.

Château d’Yquem

www.yquem.fr (lá tem os contatos e os valores das visitas, que vão de 75 a 200 euros por pessoa)

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