Enobacana

Château Branaire-Ducru, em Saint-Julien

Château Branaire-Ducru, em Saint-Julien

 

E finalmente, minha saga visitando châteaux na região de Bordeaux acabou neste lugar. E não poderia ter sido melhor. A jornada acabou no Château Branaire-Ducru, que é uma vinícola que fica na região de Saint-Julien (lado esquerdo do rio), bem ao lado do outro Château que escrevi aqui, o Gruaud Larose. Para aquela classificação de 1855 da região de Médoc, o Branaire-Ducru está no grupo dos Quatrièmes Crus. Ou seja, é um super vinho Grand Cru também. E ao degustar cada vinho que eles produzem, percebi que é um super mesmo mesmo.

Contando um pouco da história do Château Branaire-Ducru, que começa em 1680 (pasmem, é isso mesmo) quando as terras desse château eram juntas com as terras do Château Beychevelle. Quando o dono faleceu, deixou uma série de dívidas e para ajudar a pagar essas dívidas, a família vendeu as terras, dividindo os hectares e criando assim o Château Branaire-Ducru. Jean-Baptiste Braneyre comprou as terras e como era de costume, batizou com seu nome o Château que conhecemos até hoje. Ele escolheu a região por conta do terroir, pois sabia que naquele tipo de solo, o Cabernet Sauvignon se daria melhor. Ali temos argila e cascalhos, assim as raízes podem ir bem mais fundo. Tipo ideal para plantar o Cabernet que Jean tanto queria.

O château que vemos quando vamos até lá, foi construído em 1824. Em 1875, não havia ninguém da família original para cuidar da vinícola e assim, Gustave Ducru, que era alguém bes distante, assumiu a propriedade e colocou seu nome no rótulo. Nascendo assim o Château Branaire-Ducru. Hoje, o comando está nas mãos de Patrick Maroteaux, que não tinha nenhuma experiência com vinhos com começou a se aventurar com isso. Mas está dando certo e o time que eles possuem lá é impecável.

Ao todo, no Château Branaire-Ducru temos 60 hectares de plantações. Sendo 65% de Cabernet Sauvignon, 28% de Merlot, 4% de Cabernet Franc e apenas 3% de Petit Verdot. Nessa região, temos tudo que favorece o crescimento ideal das videiras. Estamos próximos ao mar, próximos ao rio, a altura máxima da região de apenas 14 metros acima do nível do mar e o solo argiloso com cascalhos, é perfeito. Existem vinhas com mais de 35 anos de idade por lá e elas ainda produzem boas uvas.

Indo para a parte mais técnica, lá no Château Branaire, eles fazem a fermentação em tanques de aço inox, com controle de temperatura. Depois disso, os vinhos ficam em barricas de carvalho francês (a cada ano eles renovam de 60 a 65% dessas barricas para o primeiro vinho), entre 16 e 20 meses. O que vai mudar nesse tempo é o que eles querem produzir, seja o primeiro ou o segundo vinho. Obviamente, o primeiro vinho é o que fica mais tempo na barrica e o que recebe sempre as barricas novas. Do primeiro vinho, o Château Branaire Ducru, são produzidas mais de 25 mil caixas de vinho. O nome do segundo vinho deles é o Duluc Branaire Ducru (que diga-se de passagem, é um excelente vinho também).

Um dos meus professores do curso já disse algo interessante. Na verdade, é um truque para bebermos sempre bons vinhos. Em um lugar como esse, onde sabemos que tanto o segundo vinho quanto o primeiro será uma ótima opção, tem uma alternativa que é boa para nosso bolso. Em anos de safras perfeitas, devemos comprar o segundo vinho, pois ele será igualmente incrível quando comparado com o primeiro e o valor dele é sempre menor do que o vinho mais top. E em safras menos favoráveis, devemos comprar o primeiro. Pois o valor será menor, devido a safra não ter sido muito boa. Mas nesse caso, estamos falando de um primeiro vinho, então não existe a possibilidade de ser um vinho menos do que maravilhoso. Guarde essa dica caso você tenha o costume de comprar vinhos olhando a safra.

Fiz a visita pela enorme propriedade do Château Branaire-Ducru acompanhada de um dos gerentes do lugar. Ele me explicou absolutamente tudo sobre o lugar. O terroir (que já escrevi ali em cima para vocês), as cepas que eles plantam lá, visitei a parte onde ficam os tanques de aço, as barricas lindas de carvalho francês e ao final, pude degustar o segundo e primeiro vinho da safra de 2015 e também o primeiro vinho da safra de 2018 que nem começou a ser vendido ainda. No primeiro vinho, que é um excelente vinho por sinal, encontramos um corpo perfeito, equilibrado entre acidez e álcool, notas de frutas vermelhas, dama da noite (me apaixonei por isso), um defumado delicioso e pimenta vermelha. Um super vinho! E o segundo, não fica nada atrás. A única coisa que notei de diferenças (além de alguns aromas), foi que os taninos são um pouquinho menos presentes e a persistência um segundo menor. Mais nada. De resto, é um vinho incrível também. O 2018 está com vindo com tudo e mesmo ele sendo um vinho jovem (e os vinhos do Château Branaire-Ducru são de guarda), já podemos comprar e beber, pois está espetacular. Acredito que 2018 tenha sido uma ótima safra para Bordeaux em geral.

Resumindo, pessoal. Acredito que a região de Bordeaux seja perfeita para quem ama os vinhos franceses (como eu) e para quem quer descobrir lugares escondidos que a gente nem imagina que existam. Foi demais ter a oportunidade de conhecer tudo isso e ver de perto a personalidade de cada château. Aqui no Château Branaire-Ducru não foi diferente.

Ter a oportunidade de visitar uma grande vinícola como essa e ver de perto tudo que eles produzem, ir para as plantações, ver as pessoas trabalhando, cuidando das videiras… Isso não tem preço. E eles foram tão gentis e tão simpáticos. Gostam de nos mostrar cada detalhe e sentem orgulho do vinho que produzem e também, sentem orgulho de todo o processo, que não é nada fácil. Produzir um vinho qualquer, até meu pai faz. Mas produzir um vinho bom, com alma, com respeito e com qualidade excessivamente elevada, é outra história. E posso dizer com sinceridade, que os franceses estão anos luz sim do resto do mundo, quando falamos de vinhos, principalmente os tintos. Me desculpem os amantes de outros vinhos e outros países, mas na minha humilde opinião, depois de tudo que vi pela França (não só em Bordeaux, mas em outras regiões também), eles são os melhores. E o Château Branaire-Ducru está nessa lista.

Château Branaire-Ducru

Bourdieu, Saint-Julien-Beychevelle. França. www.branaire.com

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