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A Vida e Paz de Sophie Magret – Capítulo 5

Capítulo 5

Marrion estava sentada no sofá da sala da casa de Sophie, com um livro entre suas mãos. Sophie estava se arrumando para a festa, afinal o grande dia havia chegado. Como sempre, Sophie não queria ajuda para se arrumar. Elas haviam decidido a respeito da cor da máscara e o vestido. Apenas isso. Quando Marrion escutou Sophie descendo a escada, guardou seu livro e foi dar uma olhada em como a menina estava. Linda, obviamente. Sophie descia com a máscara na mão e sorrindo mostrando os dentes.

– Como estou? – Perguntou Sophie, ao final da escada.

– Está esplêndida, menina Sophie. Magnífica. Muitos corações estarão quebrados ao final dessa festa. – As duas deram risada juntas. Marrion até estranhou o não habitualmente bom humor de Sophie.

– Bom, se eles estiverem quebrados, teremos que varrê-los para debaixo do tapete, então. – Sophie sorriu.

Ela estava sem sair de casa à noite desde o dia em que se sentiu sufocada. Achou que seria uma boa ideia ficar alguns dias sem ver seus amigos. Marrion até pensou que seu bom humor poderia ser devido ao fato de que Sophie estava dormindo melhor e com menos álcool no corpo. Sophie olhou em seu relógio.

– Ainda está cedo para ir à festa. Bebe uma taça de vinho comigo, amiga Marrion? – Ela não era muito fã de beber, mas aceitou o convite de Sophie. Sentiu que elas poderiam ter um tempo agradável antes de Sophie ir à festa. Marrion apenas sorriu e assentiu positivamente. Sophie foi buscar uma garrafa de vinho e taças.

– Lembro-me de meu pai, abrindo garrafas de vinho e bebendo alegremente com minha mãe. – Disse Sophie, enquanto abria a garrafa. Fez alguns segundos de silêncio. Respirou fundo. – Tenho pensado demais em meus pais nesses dias em que não fui ao Café. A saudade está apertando muito em meu peito. – Ela disse ainda mexendo na garrafa, mas já com um olhar de tristeza. Marrion, escutando atenta, se sentou no sofá. – Fico tentando imaginar o que eles fariam se estivessem aqui ainda. Se teriam orgulho de quem eu sou, do que me tornei e me torno cada dia mais. E também penso se eu seria diferente.

– Tenho certeza de que eles estariam completamente felizes com você. Talvez você já tivesse um filho, estivesse casada e ainda mais feliz. – Marrion fez uma pausa, enquanto via Sophie encher duas taças de vinho tinto. – Eu não consigo imaginar o tamanho do vazio e da dor que sente, todos os dias. Não consigo imaginar como deve ser conviver com isso. Mas te entendo. Sei que esse seu ritmo de vida e atitudes são suas maneiras de se sentir protegida. – Sophie não disse nada. Apenas entregou a taça na mão de Marrion e se sentou no sofá, ficaram se olhando, como se Sophie quisesse que Marrion continuasse. – Acredito… Que a dor que sente é tão profunda e intensa, que fica difícil sequer pensar em sentir alguma outra coisa que seja minimamente dolorosa. Você é forte, mas não sei se daria conta disso. – Sophie sorriu sem mostrar os dentes dessa vez.

– Pois é. Não tenho espaço viável para mais sofrimentos aqui dentro. Fico repassando aquele dia o tempo todo, imaginando finais diferentes. Imaginando que hoje, minha mãe poderia estar aqui, arrumando meu cabelo e me ajudando a escolher a máscara para a festa. – Ela balançou a cabeça. – Sei que você está aqui comigo e por mim, o que eu sou imensamente grata para sempre, mas tudo seria diferente.

– Tudo seria diferente. – Completou Marrion.

As duas ficaram alguns instantes em silêncio. Apenas apreciando o vinho, escutando o barulho do vento que batia na janela. Sophie gostava de sentir todos os sabores que o vinho levava para dentro de sua boca. Tentava sentir todos eles.

– No final, optou pela máscara verde. – Disse Marrion, olhando para a máscara ao lado de Sophie.

– Sim, acredito que é a que combina mais com meu vestido e com meus olhos.

– Sem dúvidas, menina Sophie. Sua mãe gostava demais dessas máscaras.

– Eu sei. Me lembro das vezes que eles foram aproveitar as festas de Veneza e eu ficava aqui com você ou com meus avós, apenas estudando e pintando. Eu nunca fui muito amiga das festas.

– Você ficou amiga delas, quando descobriu um motivo que a fizesse querer esquecer de tudo. Antigamente, você não precisava de nada disso. – Concluiu Marrion.

– Você tem razão.

Sophie começou a se lembrar de uma das festas que seus pais haviam dado em sua casa, quando ela tinha apenas 20 anos.

Era março de 1914, a guerra não havia começado. Muita música, muitas pessoas e muita alegria. Seus pais sempre davam excelentes festas, algumas das melhores de toda a cidade. Os pais de Armand sempre estavam ali. Alguns artistas também vinham e amigos de Madeleine, amigos escritores e poetas. Sophie tinha 20 anos e estava em um cantinho, apenas observando a festa, discreta. Ela adorava ver como todos se comportavam ali.

– Venha dançar comigo, Sophie! – Disse um Armand, 10 anos mais jovem. Sophie sorriu e balançou a cabeça negativamente. Ela sentia vergonha por não saber dançar.

– Você sabe que eu não sei dançar, Armand. – Sophie dava risada.

– Eu te conduzo. Vem! – Armand a segurou pelas mãos, mas ela retirou em seguida. – Sou um bom dançarino, eu juro.

– Já disse que não quero! – Ela recuou e saiu de perto, indo para o outro lado. Viu seus pais, ao longe, os dois juntos, abraçados, sorrindo, cantando e dançando. Como ela admirava aquela união e cumplicidade dos dois. Ela era jovem, mas já sabia que aquilo era amor de verdade.

Um dos seus passatempos favoritos era observar o comportamento de seus pais. Naquela época, ela desejava encontrar um amor tão forte e intenso quanto o que eles tinham um com o outro. Ela sabia que eles se respeitavam absurdamente.

– Sooooophie! Querida. Esse seu vestido está maravilhoso! – Disse uma amiga de sua mãe. – Você está se transformando em uma bela mulher. Passe na loja amanhã, tenho um vestido colorido que chegou a pouco, que ficará lindo em você. – Disse a mulher e Sophie só sorriu, balançando a cabeça positivamente dessa vez. E a mulher se foi.

Tudo ali na festa era rápido, num ritmo alucinante que deixava Sophie embriagada, mas ela adorava aquilo. Queria beber uma taça de vinho, mas seus pais não gostavam que ela bebesse. Então ela sempre bebia escondida, quando ia para aulas de arte ou quando decidia sair com seus amigos, o que era bem raro naquela época.

Seu pai a viu de longe e sorriam um para o outro. Logo sua mãe também. Eles não precisavam dizer nada um para o outro. Aquele olhar e aquele sorriso já era o suficiente. Como Sophie sentia falta daquele sorriso. Por muito tempo, ela desejou estar também naquele barco, quando o acidente aconteceu. Se ela não tivesse ficado lendo um livro sentada na praia, ela também estaria morta e isso a pouparia de uma série de problemas que vieram depois. Ela chamava esses problemas de vida sem seus pais.

– Acho que já está na hora de você ir para a festa, não?! Seu carro chegou. – Disse Marrion, olhando pela janela. Sophie se levantou e bebeu o último gole de seu vinho.

– Não me espere acordada, Marrion. Prometo que amanhã te conto tudo, caso algo de extraordinário tenha acontecido. – Sophie pegou sua bolsa e foi saindo.

Ela estava linda. Um vestido preto e longo, que deixava seu corpo ainda mais bonito, ainda mais modelado. Na cabeça, um coque (como todos os dias), porém esse estava mais solto e mais para a lateral. Ela também estava maquiada, algo raríssimo quando se tratava de Sophie.

Marrion ficou observando Sophie pela janela e percebeu o quanto ela estava mulher. Uma mulher forte, decidida e totalmente a frente de seu tempo. Marrion sabia que jamais seria algo parecido com o que os pais de Sophie foram, mas ela sentia muito orgulho de Sophie. E desejava que a menina soubesse disso.

Ao ver o carro partindo, Marrion teve um pensamento e imaginou que a porta do ateliê de Sophie poderia estar aberta. Não entendeu muito bem de onde veio esse pensamento, mas resolveu ir até lá para ver se sua intuição estava certa. Subiu os degraus, passou pelo quarto de Sophie e chegou ao ateliê. Girou a maçaneta e voilá! A porta estava aberta. Marrion sentiu seu coração palpitar mais forte e pensou se deveria ou não entrar. Afastou com cuidado a porta e logo que começou a ver o que havia lá dentro, abriu a boca, maravilhada.

Todas as peças, telas, soltas, penduradas, até uma escultura de barro maravilhosa. Fileiras e mais fileiras de quadros todos jogados no chão. O ateliê era enorme e aquele espaço estava todo tomado por arte pura de Sophie. Marrion se sentiu até meio zonza, de tanta energia que havia ali. Não mexeu em nada, não tirou nada do lugar. Ela apenas admirou e sentiu seus olhos se encherem de lágrimas quando viu a espécie de altar que Sophie havia feito com um quadro lindo que Marrion já sabia que se tratava de seus pais. Era um quadro enorme, em tons azuis, rosas e muito branco. Era um quadro suave, com duas imagens distorcidas de mãos dadas com uma terceira pessoa menor, que estava no meio das duas imagens. Havia flores, havia sol, havia nuvens e havia suavidade, paz. Marrion começou a chorar de tão emocionada que ficou.

– Meu Deus. Essa menina é uma verdadeira artista. – Disse Marrion sozinha, em pé no meio do ateliê de Sophie, com lágrimas escorrendo por seu rosto.

Ela foi até a mesa, onde havia diversos papéis rabiscados e um especial chamou a atenção de Marrion. Ela puxou o papel, mas antes decorou como exatamente ele estava, para que Sophie não percebesse que ela havia mexido ali. E Marrion leu algo que Sophie havia escrito.

 

“Meu coração já não se cabe no peito

Tantas vezes pensei que o fim resolveria tudo

Quantas guerras mais terei de enfrentar

Para finalmente descansar?

Quando me falta força para seguir

Penso na taça de vinho que nunca me decepciona

Vinho que todas as noites me embriaga

Um grande amor por favor me traga.”

 

Marrion voltou a chorar ao perceber que no fundo, Sophie queria um grande amor. Ao ler isso, ela entendeu que Sophie queria algo especial, como o amor que seus pais tinham. Sorriu ao perceber que um dia, poderia ficar tranquila ao saber que sua menina, seria bem tratada por alguém que ela acharia merecido de seu amor e todos os sentimentos que haviam dentro de seu coração tão singular. No fundo, Sophie queria sim andar de mãos dadas com alguém. Mas esse alguém não seria alguém qualquer.

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