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A Vida e Paz de Sophie Magret – Capítulo 3

Capítulo 3

– Marrion, estou saindo! – Sophie gritou da porta de saída de sua casa. Escutou os saltos apressados dos sapatos de Marrion vindo ao seu encontro.

– Para onde vai?

– Para o Café Guerbois, óbvio. Não me espere acordada. – Sophie beija a mão e manda o beijo para Marrion, enquanto sai pela porta, caminhando em direção ao portão, sem dar chances para escutar algum possível sermão.

Sophie gostava de ir ao Café Guerbois, pois ela caminhava pela cidade, apreciando as cores da noite e todas as luzes que se espalhavam pelas ruas. Ela gostava de sentir o ar fresco que sempre saía do rio Sena e fumava seus cigarros, apenas observando o compasso de cada pessoa, de cada carro que passava e olhava para o céu, observando cada estrela que nascia a medida que a noite penetrava e matava o dia lindo que haviam tido na cidade.

Sempre com roupas parecidas em todos os dias. Calças ou saias de alfaiataria muito bem alinhadas, em cores sóbrias ou no máximo um vermelho escuro ou preto. E ela também gostava de camisas de botões, em tecidos discretos. Ela usou uma vez uma camisa de seda branca e causa um alvoroço entre seus amigos. E sempre com seus longos e lindo cabelos presos em um coque. Até isso ela gostava de esconder do mundo.

– Sophie! Sophie! – Ela escuta uma voz masculina chamando por ela e olha do outro lado da rua. Vê um carro parado e alguns braços para fora acenando. – Estamos indo para o Guerbois, venha conosco! – Ela sorri e atravessa a rua correndo para ir de encontro com seus amigos.

– Boa noite, meus queridos. – Ela abre a porta do carro e se encontra com Juliette e Jean du Bargan. – Pensei que não viessem hoje. A noite de ontem foi bem intensa.

– Minha querida, Sophie. Quando queremos dar risada, aproveitar a vida e nos encontrar com os amigos, tiramos forças de toda e qualquer parte de nosso ser. – Disse Juliette, sorrindo. – E como passou o dia?

– Bem. Sem muitas emoções. – Disse Sophie, tragando seu cigarro.

– Recebeu o convite para a grande festa de Armand Troix? – Perguntou Juliette.

– Ora, Juliette. E passou pela sua cabeça que Sophie Magret não seria convidada para a festa dele? Tenho certeza de que ela foi a primeira a ser convida e recebeu algo além do convite. Algum carinho especial. – Disse Jean, sorrindo.

– Recebi o convite, junto com um buquê de flores. Talvez ele tenha enviado as flores junto, com medo de eu recusar o convite. – Eles riram.

– Tenho certeza disso. Vamos todos juntos. Será um belo baile de máscaras. – Disse Juliette, empolgada com a ideia.

– Vai ser um baile de máscaras? Não reparei nisso quando li o convite.

– Sim, Sophie. Será um baile de máscaras. Tenho lindas máscaras venezianas, caso precise de alguma emprestada. – Disse Juliette, ainda sorrindo, abraçando Jean.

– Está tudo bem, tenho algumas também. Antigas, que eram da minha mãe. Tenho certeza de que elas servirão.

– Sim, claro. Tenho absoluta certeza.

– Hoje todos estarão alvoroçados por conta dessa festa. E seguirão assim o resto da semana. – Disse Jean, acendendo um cigarro também.

– Claro! Armand sabe muito bem como ser um bom anfitrião. As comidas e bebidas sempre impecáveis. Além de ele ser um charme. Todas as mulheres ficam loucas por ele. – Juliette disse sorrindo.

– Você também, meu amor? – Jean arqueou as sobrancelhas, desconfiado.

– Claro que não, Jean. – Juliette lhe deu uma cotovelada. – Estou apenas dando alguns conselhos para Sophie.

– Estou bem, Juliette. Não se preocupe. Já recebo conselhos demais da Marrion. – Sophie ficou um pouco sem jeito e já tentou mudar de assunto. – Que peculiar aquele artista espanhol. Mas achei a mente dele brilhante.

– Ele é brilhante. Achei formidável a maneira como ele utiliza as cores em suas telas. – Disse Jean. – E eles também escreve poesias.

– Sobre rinocerontes? – Perguntou Juliette, fazendo todos rir.

– Talvez. Mas li algo que ele escreveu. Realmente muito peculiar e talentoso. Divertido em alguns momentos, ácido e irrealista em outros. – Completou Jean.

– Concordo com você, Jean. Ele é um artista bem singular. Foge da nossa realidade e não é tão bucólico e melancólico como nós. – Disse Sophie dando risada.

– Temos muito que aprender com ele. Será que nossos pensamentos trágicos e suicidas tenderiam a diminuir? – Perguntou Juliette.

– Fale por você. Eu não tenho nenhum pensamento suicida. Trágico talvez, doloroso, fatídico e catastrófico também, mas suicida não. – Concluiu Sophie, fazendo Jean gargalhar.

– Ela já teve pensamentos suicidas, Sophie. Queria se jogar no rio Sena. Porque achou que eu estava interessado por outra mulher. Tola. Preciso afirmar meu amor por ela todos os momentos de minha vida, não basta saber que a amo. Quer provas o tempo todo.

– Ora, que bobagem se jogar no Sena. Se souber nadar, irá apenas sentir frio e ficar molhada. E apenas um conselho Juliette, os homens pensam completamente diferente de nós, mulheres. Portanto, não exija que eles ajam como nós agiríamos. – Os dois ficaram olhando para Sophie, perplexos com o que ela acabara de dizer. Ela deu de ombros e tragou o último trago de seu cigarro antes de jogá-lo fora pela janela. – É o que eu acho.

– Você foi sublime em sua afirmação, Sophie. Obrigado! – Jean sorria e Juliette decidiu olhar pela a janela, sem dizer mais nada. Sophie apenas sorriu sem mostrar os dentes. Não queria ter ofendido a alma destrutiva de Juliette.

Não disseram mais nada até chegar na porta do Café Guerbois. Ao passar pela porta do café, Sophie se depara com Armand, que estava bebericando um copo com whisky sem gelo. Seus olhares se cruzam e ele sorri ao vê-la, virando todo seu corpo para ela, saindo da roda de amigos que estava.

– Querida Sophie. Como vai? – Ele vem ao encontro dela com os braços abertos e a envolve num abraço caloroso. Ela não sabia muito bem como reagir a demonstrações de afeto, então, meio dura, retribui o abraço. – Cada vez que te vejo entrar por essa porta, é um nirvana. – Sophie ficou ainda mais sem graça.

– Estou bem e você? Obrigada pelo convite e pelas flores.

– Que bom que tenha gostado. Eu queria ter mandado um buquê maior, mas sei que você não gosta muito desse tipo de coisa. – Sophie sorriu e balançou a cabeça, concordando com ele. – Temos que mudar isso. Imediatamente. Me deixe cuidar de você, Sophie. – Armand disse baixinho, segurando a mão dela e beijando, olhando em seus olhos. – Sonho com você todas as noites. – Sophie deu risada.

– Que bom, então volte para sua cama e continue sonhando. – Ela deu risada e foi caminhando para a mesa de seus amigos. Armand sorriu e a acompanhou com os olhos.

– Um dia será minha, Sophie. – Disse Armand, sorrindo. Ela apenas olhou para trás e lhe deu uma piscadela.

Sophie se junta com seus outros amigos, escritores, pintores, poetas e bêbados, todos reunidos com o intuito de celebrar a vida, brindar a vida e deixar a vida ainda mais viva. Eles pensavam que poderiam morrer no dia seguinte, portanto aproveitavam todos os segundos que ainda lhe restavam.

Após muitas garrafas de vinho, copos de whisky e cigarros, um pianista começou a tocar músicas animadas para todos dançar. Sophie ficou sentada fumando seu cigarro, apenas observando os casais dançando e os amigos brincando uns com os outros, dando risada sozinha na mesa.

– Posso me sentar com você, Sophie? – Perguntou Gertrude Stein.

– Claro, Gertrude. Estou apenas observando o colapso alegre dessas pessoas.

– Eles são extremamente alegres, sem dúvidas. E está tudo bem? Não te vi bebendo muito hoje. A noite passada foi pesada para você? – Elas deram risada.

– Não, não é isso. Acordei bem. Mas não estou com muita vontade de beber hoje. – Ela não queria confessar que passou o dia quase que inteiro com saudades de seus pais. Não queria beber a ponto de perder esse sentimento, essa saudade. Como sempre, ela gostava de sentir tudo o que sua alma e seu coração desejavam que ela sentisse, sem esconder nada ou omitir para si mesma algo que estava acontecendo dentro de si.

– Eu também estou tranquila hoje. Gosto de beber apenas nos finais de semana. Durante a semana tento ficar focada em meu trabalho. Lidar com vocês, artistas, não é tarefa fácil.

– Eu não sou uma artista, Gertrude. Sou apenas uma garota que não precisa trabalhar, que escreve e pinta por paixão, mas que meu ego não precisa de tamanha massagem, para que eu sinta a necessidade mostrar minha arte em vida. Não preciso receber críticas, não preciso escutar de alguém que sou formidável ou abominável, ou receber aplausos após puxar o pano para mostrar uma tela pintada. Estou em paz assim, e quero continuar assim. – Sophie estava tranquila dizendo cada palavra. Gertrude apenas sentada ao lado dela, escutando e olhando para as pessoas cantando e dançando.

– Te entendo. Te compreendo e vou respeitar. Mas, volto a dizer… Adoraria ler um de seus textos, poemas, ou o que quiser. E também adoraria ver suas telas. Apenas por curiosidade, como amigas. Nada de avaliações ou qualquer outra coisa. Pense nisso, tudo bem?

Sophie apenas assentiu com a cabeça e puxou sua taça de vinho para perto, depois de apertar o resto de seu cigarro dentro do cinzeiro de cristal da mesa. E continuou observando a dança. Olhou em seu relógio e era por volta das 23:30 da noite. Supostamente cedo para ela.

– Acho que vou embora. Não estou muito bem hoje, acordei cedo, tive pesadelos. E recebi muitos ataques hoje. – Ela deu risada dessa última observação, despertando a curiosidade de Gertrude.

– Que tipo de ataques? Aposto que foram galanteios. – Elas sorriram e Sophie rolou os olhos.

– Não, mas com certeza envolve esse tipo de coisa. Só porque tenho 30 anos, não quer dizer que eu precise estar com um homem para ser completa, feliz ou estar bem, em paz. Quem definiu isso como regra? Estou cansada de ser atacada pelo fato de eu não estar aberta para ter um relacionamento, por eu não querer ser mãe e esposa.

– Também acho que cada um deve saber o que é melhor para si. Mas… Me dê um motivo pelo qual não queira ser mãe. Apenas um, para que eu possa te entender melhor. – Gertrude, como sempre, afetiva com Sophie.

Sophie rodou o vinho dentro da taça, cheirou profundamente antes de beber outro gole generoso, pensando nas palavras certas para falar para Gertrude. Respirou fundo e deixou simplesmente sair um pedaço de suas ideias fixas.

– Eu não quero colocar no mundo um ser, que possa sofrer como eu sofri, quando eu partir dessa vida para o outro mundo. Não quero que minha ausência seja sentida por muitas pessoas. Quanto menos pessoas sofrerem na minha partida, melhor.

Gertrude balançou a cabeça, sinalizando que havia compreendido o sentimento forte de Sophie. Isso explicava muita coisa. Gertrude sorriu e segurou a mão de Sophie.

– Você deve pensar em sua vida, não em sua morte. Não temos como evitá-la e muito menos saber quando ela irá nos visitar para cortar nosso pescoço. Mas devemos viver, cada dia e agradecer por estarmos vivos, tendo a chance de avançar rumo a nossa felicidade, aos nossos sonhos realizados. E nossa vida, somente terá valido a pena, quando analisarmos as marcas indeléveis que deixamos nos corações das pessoas que conviveram conosco, que compartilharam bons momentos em nossos dias de existência terrena. – Gertrude respirou fundo, fazendo uma pausa. – Não se feche por medo de parecer uma bomba, que irá machucar todos a sua volta quando explodir.

Sophie não tinha o que dizer a ela. Ficou olhando para dentro de sua taça, o vinho balançando levemente e sua cabeça borbulhando de tantos pensamentos que foram mexidos pelas palavras devastadoras de Gertrude, aquela mulher tão sábia que Sophie admirava tanto.

Elas se olharam e Sophie deixou escapar um sorriso sem mostrar os dentes. Gertrude a puxou para si num abraço maternal, que fez bem a Sophie, pois ela se deixou abraçar, o que era um feito espetacular para ambas.

– Sophie! Venha, vamos dançar, meu amor. – Armand chegou falando alto, claramente bêbado, sorridente e lindo, com seus olhos azuis brilhando e seus dentes todos à mostra, num formato perfeito de felicidade. – Venha! Quero dançar essa música com você.

– Vá, querida. – Disse Gertrude, quase empurrando Sophie para os braços de Armand.

Sophie não queria dançar nada com ninguém. Queria ir embora. Mas sorriu um sorriso um pouco forçado, afinal, ela não sabia muito bem como lidar com aquele tipo de situação que ela vivia evitando. Mas se levantou e aceitou a mão esticada de Armand, que sorriu ainda mais e a puxou para onde todos estavam dançando.

Ele a conduzia e ela, ainda meio travada, se deixava levar por ele. Era algo extremamente novo para ela, que nunca havia se deixado conduzir, pois gostava de estar sempre no controle de tudo. Armand quase não acreditava no que estava vivendo naquele momento. Era como se Sophie tivesse nascido para ele, como se aquilo fosse um presente e ele chegou a pensar no que havia feito de tão bom para ter a mulher que estava apaixonado, em seus braços, dançando com ele e o olhando nos olhos.

– Eu nem acredito que aceitou meu convite para dançar. Você sempre diz não para tudo que te convido ou digo. – Armand disse no ouvido de Sophie.

– Não sou tão carrasca como vocês todos pensam. Sou apenas uma boa observadora. Melhor do que participante.

– Eu sei. Mas mesmo assim gosto muito de você. – Eles sorriram um para o outro e continuaram a dançar.

– Você… – Sophie precisou escolher as palavras certas para dizer, então pensou um pouco. – Você é uma pessoa agradável, Armand. – Ela disse e logo se arrependeu, quase virando os olhos para ela mesma. Não tinha paciência para aquele tipo de coisa. Decidiu terminar aquela música e ir embora.

– Incrível escutar algo desse tipo saindo da sua boca. – Armand sorria e ela entortou os lábios. Ela quase disse para ele não se animar muito, mas se deteve. – Você irá à minha festa?

– Claro. Já disse que aceitei o convite.

– Ótimo. Vou mandar preparar a sua sobremesa favorita. Ainda gosta de Crème Brulèe? – Armand sorriu e dessa vez Sophie mostrou os dentes num sorriso que derreteu um pouco mais o coração de Armand.

– Óbvio. Quando gosto de algo, costumo seguir assim por toda minha vida.

– Perfeito. Em sua homenagem. – A música para de tocar e Sophie quase agradece a Deus. Não estava mais aguentando ser tão cortejada por Armand.

– Preciso ir embora. Obrigada pela dança, pelo convite, pelas flores e por me mimar um pouco. – Sophie dá um beijo no rosto dele e se afastou.

– Está muito cedo. Fique mais. A noite está apenas começando. – Ele segurou a mão dela e aquilo a incomodou, mas soube disfarçar bem.

– Amanhã temos mais. Hoje estou esgotada. Até mais, Armand. – E ela voltou para a mesa para buscar sua bolsa.

– Você dançaria lindamente se ficasse mais solta, Sophie. – Disse Gertrude, sorrindo.

– Obrigada, Gertrude. Bom, eu vou embora. Estou completamente indisposta. Nos vemos amanhã. – Disse Sophie, pegando apressadamente sua bolsa que estava em uma cadeira.

– Está tudo bem?

– Sim, apenas quero ir embora. Estou precisando da minha cama hoje. – Sophie se despediu de Gertrude com um beijo na bochecha. – Boa noite.

– Boa noite. Cuide-se.

E Sophie se foi, sem se despedir de mais ninguém. Estava com pressa para ir embora dali, pois estava sentindo toda a pressão que era viver fora de sua zona de conforto. Estava se sentindo extremamente sufocada.

Ao passar pela porta, dois passos sem olhar para sua frente, ela trombou fortemente com um homem. Batendo sua cabeça no queixo dele e sentiu uma dor forte.

– Ahh! Minha cabeça. – Ela exclamou, levando as mãos à cabeça.

– Tenha mais cuidado, mocinha. – Disse o rapaz, amassando seu queixo também.

Eles se olharam. Sophie estava tão irritada que não percebeu a beleza do rapaz. Mas ele sim, percebeu muito bem a beleza dela.

– Terei mais cuidado na próxima vez que decidir bater a minha cabeça em outra cabeça. – Ela respondeu sendo sarcástica, visivelmente irritada. E foi caminhando para voltar ao seu rumo para casa, sem nem ligar para o rapaz, que ficou rindo do jeito dela, massageando seu queixo.

– Me deixe lhe pagar um drink, como pedido de desculpas por meu queixo ter encontrado o topo da sua cabeça. – Ele disse para ela. Sophie apenas acenou com as mãos, sem nem ao menos olhar para trás, continuando a caminhar. – Me diga ao menos o seu nome.

– Cabeça grande! – Sophie gritou por cima dos ombros e foi embora. Deixando o rapaz rindo do jeito rude da menina.

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