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A Vida e Paz de Sophie Magret – Capítulo 2

Capítulo 2

Após o café da manhã, Sophie se arrastou novamente para seu quarto, ainda sentindo todo o álcool da noite passada bailar dentro de seu corpo, deixando sua mente lenta. Ela vestiu uma calça preta folgada toda suja de tinta colorida, uma camisa cor de areia de botões igualmente folgada e suja. Prendeu seus longos cabelos cor de amêndoas num coque displicente no alto de sua cabeça e fumou mais um cigarro, olhando para a cidade de Paris, que ela sentia pulsar sob seus pés.

Passou toda a manhã pintando uma tela que era imensa, algo como 1m80cm de altura e 2m20cm de comprimento. Escutando Cole Porter na vitrola que ficava no canto de seu ateliê. Ali, era o mundo particular de Sophie. Ela mal deixava Marrion entrar para limpar. Ela mesma se encarregava de organizar a bagunça de um jeito que dava identidade ao trabalho dela, para que nada que não fosse seu verdadeiramente, influenciasse em suas obras.

Era uma sala bem grande, com os quadros favoritos dela pendurados na parede, incluindo um que ela havia pintado que representava seus pais. Era como se fosse uma espécie de altar. Ela os mantinha por perto, sempre a observando e cuidando. Ela gostava de sentir que, de alguma forma, seus pais ainda estavam presentes em sua vida.

Ao lado da vitrola, havia dezenas de discos jogados no chão, sem ordem alguma. Uma mesa enorme tinha telas em branco, uma infinidade de tintas, pincéis e panos sujos que ela usava para limpar qualquer coisa que precisasse. Cinzeiros cheios de bitucas de cigarros espremidas e garrafas de vinho vazias. O ateliê exalava um cheiro químico de tinta e dos outros produtos que ela precisava usar, fumaça de cigarro e ar respirado, pois ela não abria muito as janelas. Afinal, não queria influência em sua arte. Mesmo que essa influência fosse proveniente da natureza.

Ela se perdia no tempo e passava horas ali. Se não estivesse pintando, estava escrevendo sentada na cadeira de sua escrivaninha. Mas ela nunca escrevia com aquela roupa suja de tinta, parecendo um trapo. Ela incorporava uma verdadeira escritora e se vestia geralmente com calças de alfaitaria ou saias longas, camisas bem alinhadas e um chapéu pequeno na cabeça, que moldava seus cabelos presos. Aliás, ela nunca deixava seus cabelos soltos na frente de outras pessoas. A Sophie escritora, era mais civilizada.

Sophie gostava de interpretar e viver esses dois personagens. Quando pintava, era sua alma totalmente isenta de sanidade com um pincel na mão. Era caótica, temperamental, intensa, dramática e visceral quando estava jogando as tintas nas telas em branco. Chegava a ser uma cena forte vê-la pintando. Mas, apenas Marrion desfrutava daquele privilégio tão talentoso que gostava tantos de detalhes.

Mas, quando estava escrevendo, Sophie no geral era doce. Claro que escrevia com a alma também, colocando seus sentimentos traduzidos em palavras nas folhas de seus diversos cadernos, ou nas folhas que batia na sua máquina de escrever. Ela gostava de escrever poesias, sonetos, textos curtos, contos ou até mesmo, textos longos contando a história de algum amor não correspondido que ela jamais viveu.

Eram duas Sophies. E ela amava todas as partes das duas. Na verdade, Sophie amava e aceitava cada parte de seu ser. Ela acreditava que boa parte de sua paz interior, era proveniente disso. Não havia conflito interno. Ela era feliz e em paz do jeito que era, sem achar que precisava mudar algo.

Quando ela estava olhando para a tela, olhos cerrados e tentando imaginar uma nova cobertura para a parte que estava em branco, Marrion tenta abrir a porta, mas como sempre, estava trancada. Sophie revirou os olhos e gritou de lá.

– O que quer, Marrion?

– Tem um rapaz aí embaixo, quer falar com você. Disse que é por parte de Armand Troix. Parece que ele quer lhe entregar algo. – Marrion dizia, com a boca grudada na porta fechada, para que Sophie escutasse bem.

Armand Troix era um rico empresário de Paris, dono de quase metade dos estabelecimentos de comida da cidade. E ele era completamente apaixonado por Sophie, mas ela não queria nada com ele e nem com ninguém que já conhecesse.

– Já estou indo. – Sophie deixou o pincel em cima da mesa diante da tela, bebeu alguns goles da água fresca que estava em sua copo, vestiu um casaco comprido para esconder a roupa suja e saiu do quarto, dando de cara com Marrion sorridente. – O que foi?

– O senhor Armand ainda é apaixonado por você. – Disse Marrion, caminhando atrás de Sophie que estava indo até a porta.

– Ele é meu amigo, Marrion. Não tenho interesse em ninguém dessa cidade. Pensei que já tivesse sido clara com você. Homens são como os cães. Gostam de farejar tudo o que  vêem pela frente e isso incluí os traseiros das outras cachorras. Fazem festa para você, mas também vão gostar se chegar uma visita. Homens gostam de caçar, como os cães procurando algo enterrado na terra. Isso é imutável. – Sophie declarava, enquanto descia as escadas.

– Não acredito que esteja certa, querida Sophie. Existem homens bons. E você também poderá fazer seu papel de mulher e ser uma boa esposa. – Sophie deu risada, colocou a mão na maçaneta de porta e olhou para trás.

– Marrion, eu não acredito que tenha nascido com o maravilhoso dom de ser uma boa esposa, boa mãe ou qualquer outra coisa do tipo. Melhor privar o mundo de tamanha decepção. – Ela abriu a porta, sorriu para o entregador, trocou algumas palavras com ele.

A festa seria naquele final de semana, na mansão de Armand. Ela não se deu ao trabalho de perguntar quem mais havia sido convidado, mas já imaginava que todos os artistas e classe alta de Paris estariam por lá. Ela fechou a porta lendo o convite requintado da festa em uma das mãos e segurando um pequeno buquê de flores amarelas na outra, fechando a porta com o pé. Marrion sorriu ao ver as flores.

– Ahh! Flores!

– Em uma semana estarão murchas. – Disse Sophie, entregando o buquê na mão de Marrion, para que ela colocasse num vaso. – Os homens deveriam presentear as mulheres que querem conquistar com diamantes. Eles são eternos. As flores não. As flores murcham, morrem e não significam nada em um vaso. Somente na natureza.

– Presentear uma mulher com flores é um gesto extremamente gentil e doce, Sophie! Como pode não gostar?

– Flores são perfeitas, mas não deveriam ser consideradas como presente. Apenas isso. – Ela colocou o convite no aparador perto da porta e continuou caminhando para voltar ao seu ateliê.

– Oh, menina Sophie. Quanta amargura em seu coração. Quando irá deixar de reclamar das coisas e apreciar o lado bom dos acontecimentos? – Perguntou Marrion, olhando para as flores, encantada com tamanha gentileza. Sophie parou e olhou para Marrion. Seus olhares se cruzaram. – Você deveria se sentir lisonjeada por ser cortejada por um homem como o Armand. Além de educado e gentil, é muito bonito. Qualquer mulher de Paris gostaria de estar caminhando pela cidade de braços dados com ele.

– Me sinto lisonjeada. Mas não estou interessada em me envolver amorosamente com ninguém.

– Até quando seu coração permanecerá intocado?

Sophie respirou fundo e entortou os lábios. Detestava quando Marrion começava a falar sobre esses assuntos e tentar fazer com que ela mudasse de ideia sobre sua solidão totalmente opcional. Marrion não imaginava que Sophie considerava aquele seu comportamento como um trunfo de sua personalidade. Ela se sentia forte por conseguir permanecer diferente do resto das pessoas, sem esforço algum.

– Não sei se um dia mudarei. Mas gostaria que esse assunto não se tornasse diário, se for possível. – Sophie sorriu para que sua rispidez não fosse tão extrema e voltou a caminhar para seu ateliê.

Marrion não disse mais nada. Foi para a cozinha e colocou as belas flores num vaso igualmente belo. Ficou olhando para o jardim, pensando que estava falhando em cuidar de Sophie. Ela estava cada dia mais fechada e dura. Marrion não compreendia como Sophie conseguia escrever poesias tão amorosas e lindas, sendo aquela pessoa amarga e de coração fechado. Mas ela tinha esperança de que, assim como aquelas poesias, ainda existisse algo de sentimento dentro de Sophie. Talvez apenas estivesse adormecido à força por ela mesma.

Sophie por sua vez, sentia cada vez mais forte a pressão de encontrar alguém para compartilhar sua vida. E como toda boa rebelde, ela se sentia ainda mais determinada a provar de que não precisava de homem algum ao seu lado para estar feliz. Ela se considerava feliz. Não extremamente, mas estava em paz. E isso lhe bastava.

Sophie ficou olhando para o quadro em branco, pensando nas flores, nas palavras de Marrion, nas brincadeiras de seus amigos que ficavam cada hora com uma pessoa, sempre amando intensamente e em todas as vezes que ela recusou-se a beijar cada um deles. Ela balançou a cabeça sorrindo.

Pegou uma tela nova, menor e colocou no cavalete de pintura. Decidiu deixar a outra tela maior onde estava, no chão. Não ia continuar com aquela pintura naquele momento.

Sophie escolheu cores claras e variadas, em tons de amarelo, rosa, verde, azul, branco e lilás. E começou a trabalhar na tela, pintando detalhes pequenos mas essenciais para a composição da pintura.

Horas depois, Marrion bateu na porta a chamando para almoçar. Sophie pediu mais alguns minutos.

Quando desceu, Sophie estava com a tela nas mãos, recém acabada, molhada e com cheiro forte de tinta. Ela estava sorrindo. Marrion estava na cozinha, terminando de lavar algumas panelas.

– Marrion. – Elas se olharam. Marrion ergueu as sobrancelhas quando viu que Sophie estava com uma de suas telas nas mãos.

– O que é isso, menina Sophie? – Elas sorriram.

– Isso sim é um presente de verdade para alguém importante. – Sophie virou a tela e mostrou sua pintura para Marrion.

Eram flores pequenas, coloridas em tons claros, tudo misturado. Um campo de flores com um sol brilhante e céu azul. Uma paisagem parecida com as que Sophie vira nas vezes que viajou para o sul de seu país. Marrion sorriu e se aproximou para ver melhor a pintura.

– É maravilhoso. – Marrion estava com os olhos úmidos. Era uma tela diferente das que Sophie costumava pintar. Era tranquila e passava paz, mas ao mesmo tempo era íntegra e cheia da personalidade de Sophie. – É linda, uma das telas mais lindas que já vi.

– É sua. – Disse Sophie. Marrion abriu a boca e sorriu, emocionada. – Essas flores não vão murchar e são suas, não da natureza ou de alguma floricultura.

– Menina Sophie… – Elas se abraçaram forte e Marrion deixou escapar uma lágrima pelo canto de seus olhos. Ela sabia que aquele gesto era de extrema vitória, pois Sophie jamais tinha dado uma de suas telas para alguém. Era um privilégio ter aquela tela para ela. – Muito obrigada, minha querida!

– Não tem de que. – Sophie sorriu e olhou para a mesa. – Estou morrendo de fome, vamos almoçar?

Marrion sorriu por Sophie não se prolongar na demonstração de afeto. Mas já sentia que havia ganhado uma das batalhas que travava todos os dias para que Sophie desse um lapso de sua emoção, para que ela deixasse sair algo de dentro de seu coração. E aquela tela, era a prova de que o coração de Sophie não era tão duro e imperfurável assim.

– Amo o seu pato, Marrion. É o melhor pato de toda Paris. Mas é melhor manter isso em segredo, pois não quero que nenhum restaurante roube você daqui. – Sophie disse, dando risada e se sentando à mesa, para comer. – Deixe essa tela ali na mesa para secar e venha comer comigo, Marrion.

Elas sorriram e almoçaram juntas, sem trocar muitas palavras. Mas a alma de ambas estava ainda mais leve. Estava em paz.

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